Tem dia que a gente se sente

Eu me prometi escrever diariamente. Porque preciso, porque me faz bem, porque se a gente não coloca pra fora, a gente explode. Mas escrever é apenas mais uma das coisas que eu preciso, quero, mas não consigo fazer.

17h, tô morrendo de fome. Não almocei hoje. Nem ontem. Enfim.

Tem dia que não é pra ser mesmo, melhor não insistir.

Os amigos sofrem e a gente está longe, não pode estar lá pra abraçar, pra ficar junto, pra não falar nada, só pra ficar ali e dar colo. Internet é linda mas nem sempre é o suficiente. Quase nunca, eu diria.

Outro dia postei essa foto do caderninho de receitas que herdei da minha mãe e ficou todo mundo pedindo a receita inteira, mas ela tá toda ali, praticamente. Inclusive é uma raridade porque tem o modo de fazer, minha mãe não anotava modo de fazer da maioria das receitas porque provavelmente pra ela era óbvio. E aí hoje eu fico perdida olhando pra lista de ingredientes e tentando descobrir como transformar aquilo no prato final.

Esse bolo tem sabor de infância. A gente cresce, experimenta coisas novas, muda o paladar. Mas tem aquelas comidas que ficam pra sempre, acho que é isso que chamam de confort food. Seria um bolo de chocolate normal, fofinho, gostoso, se não tivesse tanto sabor de bolo feito por mãe, de festa de aniversário em casa, de família reunida. É o bolo de chocolate da minha mãe (e hoje é o meu). Um bolo perfeito pra um dia como o de hoje.

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Faz assim:  tira os ovos da geladeira pra ficar em temperatura ambiente, liga o forno, unta e enfarinha uma forma, bota Despacito no spotify e pode começar. Bate os 2 ovos, 1 xícara de óleo, 2 xícaras de farinha de trigo peneirada, 1 xícara de açúcar (uso demerara) e 1,5 xícara de chocolate em pó. Eu faço nessa ordem, porque sim. Na mão mesmo, mas pode ser na batedeira se você preferir.

Mas tá escrito nescau na receita! Tá. Só que saca a idade do caderno, é do tempo em que nescau tinha chocolate e não era açúcar puro. 

Vai ficar uma maçaroca difícil de mexer, vai grudar tudo na colher, você vai achar que fez algo errado, mas não fez, é assim mesmo. Calma. Ferve uma xícara de água. É, água mesmo. Joga a água fervente na massa e mistura bem. O milagre acontece, a maçaroca vira uma massa linda, escura, o cheiro é delicioso, o gosto também, vale meter um dedinho e lamber (pra que fazer bolo em casa se não for pra comer um pouco de massa crua, né?). Aí mistura 1 colher de sopa de fermento, delicadamente. A massa na forma, a forma no forno e a velha a fiar.

Tá pronto? Tá cheiroso, tá com cara de bolo, espetou o garfo e saiu sequinho? Tira do forno. 

Aí bota numa panelinha: 1/2 xícara de leite, chocolate e açúcar a gosto (espero que seu gosto seja bastante chocolate) e 1/2 colher de manteiga. Leva ao fogo até ferver. Fura o bolo ainda quente todinho com um garfo e joga a calda. Tem que ser com ele quente pra calda penetrar bem. Tá pronto. De nada.

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Tem uns quinze dias que eu tô me segurando e controlando e respirando fundo pra não entrar numa crise de pânico daquelas. Mas a gente sabe que a ansiedade quando vem, ela vem que vem. Não tem como segurar. Então, se ainda estou controlando, conseguindo manter minha rotina básica, cuidados com as crianças, trabalho e tal, ainda que com taquicardia, com falta de ar, com dores físicas, então é porque não está tão ruim assim. “Não está tão ruim” é tão pouco, você pode pensar. Mas olha. Se você já esteve lá no ruim de verdade, talvez pense diferente.

Mas a vida, ela às vezes chega numas encruzilhadas. Tem quem escolha facilmente o caminho. Tem quem demore mas acabe decidindo. E tem quem fique ali, paralisado.

Daí que nesse meio tempo eu acabei lembrando muito da minha mãe e falando dela. Porque nesses momentos essa ausência pesa mais. Não é que a mãe vá resolver tudo pela gente. Mas não ter essa referência deixa a gente mais frágil. Mais insegura. Mais medrosa. Porque sabe que, se tudo der errado, não tem pra onde correr. Um colo pra chorar. É você e você no mundo, SE VIRA. E às vezes a gente só precisa mesmo de um colo pra chorar e espantar a dor e o medo antes de seguir em frente.

(Era pra ter uma receita de bolo de chocolate aqui, fazendo o link com a minha mãe e o caderno de receitas dela, mas vai ficar pra outro post.)

Bolo de banana (engorda e faz crescer)

não tirei foto do bolo, perceberam?


As férias dos pais acabam mas as das crianças não. Todo ano a mesma coisa. “Mãe, como pode só 30 dias de férias em um ano?”. Sabe nada, inocente. Aguarde os próximos atos do golpista. 

Mas aí vai um pra um lado, um pro outro, fico com aquele tempo livre que nem sei como lidar. Aquilo, né? Expectativa: vou sair de noite, uhu, vou ver todos os filmes em cartaz, vou arrumar a casa, vou jogar tralha fora. Realidade: como (besteira) e durmo. 

E faço bolo. Mas não faço mercado, então tenho que me virar com o que tem. Lembrei que tinha bananas congeladas e foi isso. Nesse calorzão sempre tenho banana congelada porque elas amadurecem rápido demais e nem a família viciada em banana dá conta. Daí adaptei o bolo de iogurte. Não tinha iogurte, tinha banana, virou tcharan! bolo de banana. 

Usa a mesma receita e no lugar do iogurte coloca 3 ou 4 bananas amassadas (eu bati no liquidificador porque estavam congeladas, mas acredito que amassada vai bem também). Um pouco de canela na massa. Corta outra banana em pedacinhos pequenos e coloca também. Passas, se você for de passas (eu sou) e tiver em casa (eu não tinha). Forma untada e enfarinhada, forno, teste do palito e prontinho. Ah! Se quiser polvilha açúcar por cima, vai fazer uma casquinha deliciosa, vai por mim. Não fica leve como a receita original, é um bolo mais pesadão. Mas ó, é bom, viu?

Congelei metade pra não comer tudo sozinha. Eu acho que me engano. 😉

Ave Maria

Lá em Arraial d’Ajuda tocava a ave maria às 18h. Não sei se toca todo dia ou se dei sorte de ser uma ocasião especial bem no dia em que eu estava na praça da igreja às seis. Mas sei que me emocionei com o tanto de lembranças que aqueles minutos me trouxeram. Eu aprendi a tocar a Ave Maria de Gnoud no piano pra tocar pra minha mãe. Porque ela adorava e passou a ser minha preferida. Como nada nunca é simples, tive que aprender a de Schubert (era Schubert?) também, porque minha avó dizia que essa sim era linda. Eu sempre detestei tocar piano para os outros, gostava de tocar pra mim só pelo prazer de tocar e preferia fazer quando estava sozinha em casa. Mas Ave Maria não. Ave Maria eu tocava pra elas. 

Hoje, por conta do post de uma amiga, me deu uma vontade incontrolável de tocar piano. Coisa que não faço há anos. (a não ser quando toco minha versão do Can Can com as crianças, cantando “eu sou a Raimunda, olhem minha bunda nesse cabaré”, o que me transformou em melhor mãe do universo na primeira vez que apresentei, mas esse post é sobre Ave Maria e não cabarés).  Enfim, pesquisei no Google uma partitura da Ave Maria, peguei uma bem simplificada, sentei, tentei tocar e cheguei a duas conclusões:

1. preciso urgentemente chamar o afinador 

2. preciso urgentemente reaprender a tocar piano. Já sei o que vou estudar em 2017

(levantei do piano e minha irmã tinha postado uma foto da minha mãe. eu acho que tudo está interligado. o que, não sei. mas está.)

* foto: igreja de nossa senhora da ajuda – BA

Sobre sundaes e séries

A gente comete muitos erros na vida. Pega caminhos errados. Decisões das quais se arrepende. Eu, por exemplo, era uma criança fresca que resolveu que não gostava de chantilly. Não sei se cheguei a provar, mas não gostava. Daí ia no Palheta (tijucanos entenderão) e pedia sundae SEM chantilly. Quem pedia com ganhava uma verdadeira montanha de chantilly. E ainda podia pedir choradinha pra balconista. E eu? Pedia sem. Porque dizia que não gostava de chantilly. Hoje eu penso na quantidade de chantilly que desperdicei e só me resta chorar.

Lembrei do sundae do Palheta porque assisti Stranger Things. Todo mundo já deve ter lido mil coisas sobre a série, as referências, discussão se Winona está bem ou se só grita, como as crianças são incríveis, lista de motivos pra assistir a série e tal. Os atores são incríveis mas o roteiro não é lá essas maravilhas, né? Dá uma enrolada boa, podia ter menos episódios. Mas quem se importa? Eu achei o clima anos 80 tão perfeito, tão sensacional, que se sobrepôs a todos os defeitos. Eu ri quando vi que os personagens fumavam porque meus filhos falam que sabem quando um filme infantil é antigo “porque as pessoas fumam”.

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Não achei que faltou novidade, porque não esperava novidade mesmo. E não achei que era uma imitação barata porque, bem, é uma imitação descarada mesmo, mas pra mim é algo que vai além disso. Alguns falam em homenagem. Não sei. Eu acho que é mais aquilo de captar a atmosfera. Parecer mesmo um filme filmado em 1985. Eu adorei por isso. Adorei. Me senti com 12 anos, sentada na poltrona do Carioca na Saens Peña. Só faltou a pizza no Palheta depois. E o sundae sem chantilly.

Jihad 2.0

imageNão é nenhuma grande obra literária e em alguns momentos os diálogos incomodam, mas nenhum livro me impactou tanto assim nos últimos tempos.

Daqueles que você termina de ler e fica pensando “é mentira isso, né? Ficção. Tudo inventado. Historinha. Só imaginação.” Mas você sabe que não é.

A história principal é o relato de uma jornalista francesa que, com um perfil falso, primeiro no fb e depois por Skype, entra em contato com um membro do estado islâmico, que tenta recrutá-la e a pede em casamento, preparando seu jihad para a Síria. Ela dá corda e entra na personagem para obter informações e escrever uma matéria. A história de fundo é a de centenas (milhares?) de jovens do mundo todo que, recrutados pela internet, abandonam sua vida, família, tudo, para se juntar ao EI. Caso se arrependam, não tem como escapar. Caso se arrependam e consigam escapar, serão sempre, ao voltar pra casa, terroristas potenciais, vigiados, interrogados, presos.

E embora seja uma história conhecida, eu nunca tinha me dedicado a ler mais sobre o assunto, sempre tudo muito por alto. Me senti tão, tão pequena. Pensando nessas meninas e meninos. Jovens, adolescentes, alguns quase crianças. Mal fechei o livro, fui pro Google perder meu sono. É inevitável. Recomendo e aceito sugestões de textos sobre o assunto em português.

#uerjresiste

Outro dia a Verô postou uma imagem com uma citação: “de que forma é possível mensurar os lugares onde o destino se introduz numa vida? ” e perguntou algo como “quando aconteceu algo aparentemente banal, mas que mudou sua vida? ”

Minha resposta: não vi meu nome na lista de aprovados no vestibular.

É, essa sou eu. Me amem mesmo assim, por favor. Ou não. Mas o que eu não sabia, nesse dia, era que essa foi a forma que a UERJ encontrou de se introduzir na minha vida. Fiz vestibular para Comunicação Social, Psicologia e Ciências Sociais. Vou resumir um pouco porque olha, ninguém merece a história completa. Ciências Sociais eu fiz só pra Unicamp e fiz vestibular pra lá totalmente influenciada por Feliz Ano Velho, passei, me matriculei, mas não banquei a mudança, nem tinha quem bancasse pra mim. Psicologia eu fiz na PUC, passei e cursei um semestre até, vejam só. E comunicação pra UFRJ, UFF e Uerj. Não passei na Uerj e passei na UFRJ mas, vai entender, não vi que tinha passado, só descobri tarde demais (minha mãe quase teve um treco, eu chorei dois dias inteiros, pensem num drama). Aí passei na UFF, o mundo voltou ao normal, me matriculei, mas por conta de greves no ano anterior, as aulas lá só iriam começar em maio, algo assim. Então eu tava de boas esperando quando fui chamada na reclassificação da Uerj. Fui lá pra ver qual era, enquanto aguardava as aulas da UFF começarem, a faculdade era pertinho de casa, eu não tava fazendo nada você também, não custava nada, nem passagem de ônibus porque era tão perto que eu ia a pé.

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Daí danou-se. Alguma coisa aconteceu no meu coração quando entrei naquele prédio cinza, naqueles prédios cinzas, tão feios por fora mas tão vivos por dentro. E só saí 5 anos depois, formada. Quer dizer, sair, sair mesmo, não saí até hoje. Além das aulas no período noturno, estagiei em vários setores, conheci cada canto daqueles prédios e rampas, vivi tanta coisa e tão intensamente ali (ou a partir dali) que não cabe nesse post. Departamento cultural, HUPE, Jaleco e outros bares da redondeza, tantos shows na Concha Acústica (sdds, Cássia Eller), amigos, amores, viagens. Acima de tudo, a Uerj me mostrou um mundo que eu não conhecia. Que eu até sabia que existia, de ouvir falar, mas não conhecia. Pessoas. Saberes. Lugares. Minha vidinha classe média tijucana ruiu para sempre, ainda bem. Pela primeira vez na vida me senti pertencendo a um lugar, a um grupo. Não me senti inadequada. Fiz amigos de todos os lugares, de todas as idades. A estrutura do prédio que facilita o convívio e interação entre diversos cursos, tão maravilhoso aquilo. Não é exagero dizer que a Uerj mudou minha vida. Meu olhar pro mundo. Tudo.

Essa mesma Uerj, não surpreendendo ninguém, foi a primeira universidade do país a adotar as cotas. Essa mesma Uerj é a que hoje está sem salários, sem verbas, sem estrutura. É a universidade que o governo do Rio tem se esforçado tanto pra destruir. Qualquer pessoa, qualquer cidadão, tem o dever de se revoltar, de denunciar,  de lutar contra isso.

Mas eu, além da revolta, tenho também essa dor no meu peito. 😦