Meu nome é Gal

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A gente tinha esse código, que nem era secreto. “Tô Gal?”. A pergunta que uma fazia pra outra, em certo momento da noite. Porque eu não sei vocês, não sei se isso é comum, mas na minha família a gente vai ficando mais descabelada a medida que a noite vai passando e vamos ficando mais bêbadas. Deve ser alguma coisa no álcool. Quando bebo, falo mais alto, perco a noção, sinto calor e fico totalmente descabelada. Aí “tô Gal” era a senha. Uma avisava pra outra. Hora de dar uma maneirada. Ir com calma. Dar um pulo no banheiro e ajeitar o cabelo. Que tá igual ao da Gal Costa.
Passei tanto tempo da minha vida tentando domar minha juba de Gal. Pra que, me pergunto hoje.
Porque hoje eu amo minha juba. Do jeito que ela é, cheia de frizz, volume, pontas duplas e fios secos. Mas tão minha. Tão eu. Dizem que a gente vai envelhecendo e perdendo a noção, eu não sei se é isso. Há pouco tempo, quando amigas falavam que gostavam mais da mulher que eram aos 40 que a menina que foram aos 20 e que não trocariam, eu achava meio absurdo. Não tinha dúvida que eu era muito mais interessante, bonita, gostosa e até mesmo inteligente aos 20 e poucos. Sei lá de onde eu tirava isso.  Quer dizer, sei, né? Mas hoje me olho e me vejo como sou. Bonita, gostosa, interessante, aos 43. Não pro mundo, não pra sociedade, não pros padrões aí que inventaram e que eu quase acreditei, longe disso. Mas quem se importa? A vantagem de envelhecer não é perder a noção. É não se importar. Ou, exatamente, saber o que importa. Sou isso tudo aí pra mim. E basta.
Aí que nesse fim de semana eu vi, pela primeira vez, um show da Gal Costa. Aquela. A referência do cabelo que eu tinha mas não queria ter. E foi uma coisa que nem sei como descrever. Fiquei embasbacada. Hipnotizada por aquela mulher maravilhosa. Não é a voz só. Nem só a música. Ou o domínio do palco, da platéia. É tudo junto. E ela fala, né? Lá no meio do show, quanto está todo mundo já apaixonado por ela, topando largar casa, família, emprego. “Tenho 71 anos”. Beijinho no ombro.
Outro dia minha filha queria me provar que eu não sabia o significado “de hoje em dia” das palavras que ela e as amigas usam. Uma delas era “diva”. Os jovens, sempre achando que estão inventando a roda. Claro que sei o que é diva. Vi uma no palco anteontem. Diva cabeluda. Com cabeleira de Gal. Inspiradora. Nunca me amei tanto. Descabelada.

#usemcamisinha

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Você bota as crianças pra dormir, senta no sofá, os pés pro alto, procura uma série* na netflix, finalmente abre um saco de batata frita porque não quer dividir não quer que as crianças comam besteira, ah, que delícia o silêncio, a paz, vou ver minhas séries. Quando alguém grita lá do quarto onde as crianças deveriam estar dormindo: “Mããããe, o que você está comendo que está fazendo barulho de saco, hein?!

*  acabei vendo o primeiro episódio de Chicas del Cable e de Rita. Achei a primeira com potencial, mas não gostei muito da história da protagonista. Mas tem personagens interessantes e talvez melhore. Pela Rita tô apaixonada já.

No man’s land

Wonder-Woman-No-Mans-Land

Eu não estava preparada pra Mulher Maravilha começar com uma cena de Paris. Sabe quando o coração acelera? Ali já soube: vou amar esse filme, aconteça o que acontecer. Aí, né? 1a Guerra, a guerra pra acabar com todas as guerras, vocês estão brincando comigo? E pá, a melhor cena, Diana atravessando a terra de ninguém. Todo mundo já fez seu textão sobre o filme, análises profundas e embasadas, o feminismo, os movimentos sociais, o mundo, tudo tá ali. Mas minha leitura é bem rasa e bem pessoal mesmo. Meu mundo é meu umbigo. E tá todo mundo ali na trincheira, né? Parados há um ano. Um ataque aqui, uma defesa ali, mas no fundo estão empacados. Em condições ruins, quem quer viver numa trincheira? Mas ninguém avança. Ninguém recua. À frente, aquela terra toda desocupada, terra de ninguém. Que é perigosa pois desconhecida, mas que é preciso ser atravessada pra chegar do outro lado, este outro desconhecido, não se sabe exatamente o que vamos encontrar. Mas ela vai. Diana vai, confiante. Porque ficar parada ali simplesmente não é uma opção. Ela encara. A gente sabe que ela vai conseguir porque afinal ela é a Mulher Maravilha. Mas se ela não tivesse ido, não conseguiria, né?

Ah, mas comigo é diferente, eu não sou super-heroína de filme, eu não tenho aquele escudo.

E daí?

 

Somos tão jovens


Eu ia dizer que a treta sazonal canjica X mungunzá me deu uma vontade louca, como sempre acontece, de comer canjica. (ou mungunzá, quem se importa? O que é um nome, etc. aquilo a que chamamos canjica, se tivesse outro nome, não pera). Mas a verdade é que eu tô louca de vontade mesmo é de comer arroz doce.

Arroz doce é o doce mais improvável. Eu nem adoro arroz. Se eu paro pra pensar friamente, nem provaria. Qual a chance de ser bom, de dar certo? Mas ó, o arroz foi lá e não desperdiçou essa chance pequena não. Agarrou pela mão e se transformou nesse doce maravilhoso.

Vocês lembram de quando só tinha telefone fixo e só um aparelho por casa classe média? Aí tinha a mesinha do telefone. Com lugar pra guardar os catálogos e folhas amarelas. Quando os filhos chegavam na adolescência era muito importante ter um fio bem comprido pro telefone. O da minha casa só ia até a porta do meu quarto. Daí eu ficava ali, né? Sentada no chão, na porta do quarto, hooooras no telefone. Falando e desenrolando o fio. E a gente decorava os números. Algo que meus filhos nunca vão saber como é. Decorar números e desembolar fio. Mas a mesinha do telefone eles conhecem, tenho até hoje. Só não sabem a função original.

Hoje eu não sei nem o telefone da minha casa. Mas sei de cor ainda o telefone da minha avó. Minha avó morreu há 25 anos.  Minha avó fazia arroz doce. E pirulito de calda de caramelo.

Os móveis dela hoje estão aqui na minha casa. Cômoda, aparador, mesa de jantar, sofá, mesinhas, armário. Em breve (espero) vou ter que desapegar da maioria por motivos de mudança e falta de espaço. Fico triste porque me sinto deixando parte da minha história pra trás.

Mas talvez seja exatamente o que eu preciso nesse momento.  Deixar pra trás. E seguir em frente.


Andei nostálgica demais no último mês. É um conforto quando as coisas dão errado, mas é também fuga, aquele auto-engano de ah, como as coisas eram melhores. Mas será que eram? Tão melhores assim? Agora tô voltada pro futuro, sonhos que estão se concretizando, tantos planos pra executar, que frio na barriga. É mais gostoso. Hora de andar pra frente. 
E o presente? Bem…

Lá no início do ano eu cismei com uma viagem que é um sonho acalentado há quase 30 anos. Falei “vou fazer”. Não é possível continuar vivendo e seguir em frente sem fazer isso antes (claro que era, mas enfim). Pensando bem agora, foi meio loucura. Continua sendo. Mas tá feito. E tá chegando a hora. E vai ser bom. E apavorante. Mas bom. O primeiro de muitos sonhos que espero realizar nos próximos anos. 

Eu adoro artistas de metrô. Músicos e tal. Sempre animam a viagem, deixam o dia mais leve. Mas as coisas estão começando a passar dos limites, dos meus limites. Outro dia era um repentista interagindo com os passageiros. Escolhia um, fazia um verso, todos gargalhavam. Se a pessoa não gostava, ele falava sobre isso, debochava, as pessoas riam mais ainda. Não, gente. Não. Que pavor. Só fiquei o tempo todo pensando na resposta que ia dar se ele viesse se meter comigo. Em pânico. Ainda bem que não veio, porque não consegui pensar em nada. 

Sou tão inábil socialmente que nem sei como me foi permitido viver. 

Junho, seja gentil. E seja longo, por favor.