Sobre sundaes e séries

A gente comete muitos erros na vida. Pega caminhos errados. Decisões das quais se arrepende. Eu, por exemplo, era uma criança fresca que resolveu que não gostava de chantilly. Não sei se cheguei a provar, mas não gostava. Daí ia no Palheta (tijucanos entenderão) e pedia sundae SEM chantilly. Quem pedia com ganhava uma verdadeira montanha de chantilly. E ainda podia pedir choradinha pra balconista. E eu? Pedia sem. Porque dizia que não gostava de chantilly. Hoje eu penso na quantidade de chantilly que desperdicei e só me resta chorar.

Lembrei do sundae do Palheta porque assisti Stranger Things. Todo mundo já deve ter lido mil coisas sobre a série, as referências, discussão se Winona está bem ou se só grita, como as crianças são incríveis, lista de motivos pra assistir a série e tal. Os atores são incríveis mas o roteiro não é lá essas maravilhas, né? Dá uma enrolada boa, podia ter menos episódios. Mas quem se importa? Eu achei o clima anos 80 tão perfeito, tão sensacional, que se sobrepôs a todos os defeitos. Eu ri quando vi que os personagens fumavam porque meus filhos falam que sabem quando um filme infantil é antigo “porque as pessoas fumam”.

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Não achei que faltou novidade, porque não esperava novidade mesmo. E não achei que era uma imitação barata porque, bem, é uma imitação descarada mesmo, mas pra mim é algo que vai além disso. Alguns falam em homenagem. Não sei. Eu acho que é mais aquilo de captar a atmosfera. Parecer mesmo um filme filmado em 1985. Eu adorei por isso. Adorei. Me senti com 12 anos, sentada na poltrona do Carioca na Saens Peña. Só faltou a pizza no Palheta depois. E o sundae sem chantilly.

Jihad 2.0

imageNão é nenhuma grande obra literária e em alguns momentos os diálogos incomodam, mas nenhum livro me impactou tanto assim nos últimos tempos.

Daqueles que você termina de ler e fica pensando “é mentira isso, né? Ficção. Tudo inventado. Historinha. Só imaginação.” Mas você sabe que não é.

A história principal é o relato de uma jornalista francesa que, com um perfil falso, primeiro no fb e depois por Skype, entra em contato com um membro do estado islâmico, que tenta recrutá-la e a pede em casamento, preparando seu jihad para a Síria. Ela dá corda e entra na personagem para obter informações e escrever uma matéria. A história de fundo é a de centenas (milhares?) de jovens do mundo todo que, recrutados pela internet, abandonam sua vida, família, tudo, para se juntar ao EI. Caso se arrependam, não tem como escapar. Caso se arrependam e consigam escapar, serão sempre, ao voltar pra casa, terroristas potenciais, vigiados, interrogados, presos.

E embora seja uma história conhecida, eu nunca tinha me dedicado a ler mais sobre o assunto, sempre tudo muito por alto. Me senti tão, tão pequena. Pensando nessas meninas e meninos. Jovens, adolescentes, alguns quase crianças. Mal fechei o livro, fui pro Google perder meu sono. É inevitável. Recomendo e aceito sugestões de textos sobre o assunto em português.

#uerjresiste

Outro dia a Verô postou uma imagem com uma citação: “de que forma é possível mensurar os lugares onde o destino se introduz numa vida? ” e perguntou algo como “quando aconteceu algo aparentemente banal, mas que mudou sua vida? ”

Minha resposta: não vi meu nome na lista de aprovados no vestibular.

É, essa sou eu. Me amem mesmo assim, por favor. Ou não. Mas o que eu não sabia, nesse dia, era que essa foi a forma que a UERJ encontrou de se introduzir na minha vida. Fiz vestibular para Comunicação Social, Psicologia e Ciências Sociais. Vou resumir um pouco porque olha, ninguém merece a história completa. Ciências Sociais eu fiz só pra Unicamp e fiz vestibular pra lá totalmente influenciada por Feliz Ano Velho, passei, me matriculei, mas não banquei a mudança, nem tinha quem bancasse pra mim. Psicologia eu fiz na PUC, passei e cursei um semestre até, vejam só. E comunicação pra UFRJ, UFF e Uerj. Não passei na Uerj e passei na UFRJ mas, vai entender, não vi que tinha passado, só descobri tarde demais (minha mãe quase teve um treco, eu chorei dois dias inteiros, pensem num drama). Aí passei na UFF, o mundo voltou ao normal, me matriculei, mas por conta de greves no ano anterior, as aulas lá só iriam começar em maio, algo assim. Então eu tava de boas esperando quando fui chamada na reclassificação da Uerj. Fui lá pra ver qual era, enquanto aguardava as aulas da UFF começarem, a faculdade era pertinho de casa, eu não tava fazendo nada você também, não custava nada, nem passagem de ônibus porque era tão perto que eu ia a pé.

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Daí danou-se. Alguma coisa aconteceu no meu coração quando entrei naquele prédio cinza, naqueles prédios cinzas, tão feios por fora mas tão vivos por dentro. E só saí 5 anos depois, formada. Quer dizer, sair, sair mesmo, não saí até hoje. Além das aulas no período noturno, estagiei em vários setores, conheci cada canto daqueles prédios e rampas, vivi tanta coisa e tão intensamente ali (ou a partir dali) que não cabe nesse post. Departamento cultural, HUPE, Jaleco e outros bares da redondeza, tantos shows na Concha Acústica (sdds, Cássia Eller), amigos, amores, viagens. Acima de tudo, a Uerj me mostrou um mundo que eu não conhecia. Que eu até sabia que existia, de ouvir falar, mas não conhecia. Pessoas. Saberes. Lugares. Minha vidinha classe média tijucana ruiu para sempre, ainda bem. Pela primeira vez na vida me senti pertencendo a um lugar, a um grupo. Não me senti inadequada. Fiz amigos de todos os lugares, de todas as idades. A estrutura do prédio que facilita o convívio e interação entre diversos cursos, tão maravilhoso aquilo. Não é exagero dizer que a Uerj mudou minha vida. Meu olhar pro mundo. Tudo.

Essa mesma Uerj, não surpreendendo ninguém, foi a primeira universidade do país a adotar as cotas. Essa mesma Uerj é a que hoje está sem salários, sem verbas, sem estrutura. É a universidade que o governo do Rio tem se esforçado tanto pra destruir. Qualquer pessoa, qualquer cidadão, tem o dever de se revoltar, de denunciar,  de lutar contra isso.

Mas eu, além da revolta, tenho também essa dor no meu peito. 😦

 

agora sim: bolo de milho com coco

Hoje já é amanhã, então vamos à receita.

Como contei aqui, esse bolo de milho eu fiz pra levar pra festa junina, já que tínhamos que levar um prato “típico”. Não é uma receita lá muito honesta, vai milho de lata mesmo. Mas é rápida (o que, no caso, era o mais importante pra mim), super simples, daquelas que até “quem não sabe fazer bolo” faz.

A receita não é minha, tem várias versões pela internet. A primeira que eu aprendi não levava coco, mas o coco faz toda diferença. Coco é vida, coco é amor, amo/sou coco. Esse eu fiz pra festa junina mas em casa faço o ano todo, não tem isso de data. Qualquer dia é dia de bolo de milho. Olha como é simples.

Você vai precisar de:
– 4 ovos (em temperatura ambiente)
– 1 colher de sopa de manteiga
– 1 lata de leite condensado
– 1 lata de milho
– 100g de coco (se tiver fresco, ótimo, mas o de saquinho do mercado também funciona muito bem aqui)
– 1 colher de sopa de fermento

Liga o forno pra pré-aquecer. Unta e enfarinha uma forma. Ou prepara as forminhas pequenas, se preferir. Aí coloca todos os ingredientes (menos o fermento) no liquidificador e bate tudo junto e pronto. O fermento você só coloca no final e dá uma batidinha rápida. Coloca na forma, leva ao forno, espera o tempo aí que seu forno leva pra fazer bolo, quando estiver com cara e cheiro de bolo pronto você enfia um palito na massa, se sair limpo, está pronto.

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Espera esfriar pra desenformar. Ou não. Eu nunca espero porque adoro bolo quente.

Antes que perguntem, não, não leva farinha. Sim, vira um bolo de verdade e não um pudim. Um bolo molhadinho, delicioso. Várias amigas já testaram e aprovaram. Falta a Luciana. 😉

(a foto é a mesma porque só tirei essa, não faço book de bolo, né?)

Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo

Estudei numa escola que girava em torno dos esportes. As olimpíadas anuais eram o ponto alto do calendário. A escola toda se mobilizava, as turmas montavam os times, treinavam, buscavam patrocínio (!) para os uniformes, depois passavam uma semana competindo em várias modalidades e inclusive na torcida. As olimpíadas eram tão importantes que quando as turmas eram formadas no início do ano começava uma romaria à coordenação para tentar trocar fulano pra turma tal, sicrano pra outra, de forma a montar os times. No primeiro dia de aulas após a cerimônia de premiação, a turma vencedora fazia uma “volta olímpica” na escola exibindo o troféu e, num certo ano, a reação das outras turmas gerou um vandalismo que não sei como começou, mas lembro que vi uma tábua de vaso sanitário voando da varanda do 2º andar. A fina flor da elite tijucana.

Não, não vou negar que eu passava os dias na escola assistindo e torcendo. Que era mesmo só o que restava pra quem não tinha intimidade nenhuma com a bola fazer. Como as aulas de educação física eram todas nesse espírito competitivo, eu odiava todas, assim como odiava os professores (perto do que escutei deles, até que odiei pouco). No 1o ano fiquei em recuperação em educação física por faltas. Fiquei em prova final de religião também. (pode rir)

Mas isso tudo só pra dizer que ó: estou aqui. Sobrevivi. Marca demais passar toda a adolescência com essa sensação de não pertencimento que é algo que sinto que se apegou à minha personalidade para sempre, mas a gente sobrevive. Só que sobreviver é muito pouco, eu acho.

***

Corta pros dias de atualmente. Dois filhos. Duas experiências bem frustrantes em duas escolas diferentes. Ótimas escolas. A melhor (cof cof) educação. Mas que não atendiam às particularidades e necessidades de cada um. E nem aos valores da nossa família. Mas escola é assim mesmo, tudo igual, não tem jeito, no final todo mundo sobrevive. Me recusei a aceitar isso. Tivemos que ir longe, adaptar a vida, horários, rotinas. Que loucura, muitos disseram. Mas lá no fundo eu pensava que loucura seria repetir o erro por comodismo e preguiça. Tenho a possibilidade, tenho o privilégio de escolher, então porque não?

E foi por isso tudo também que eu chorei. Chorei sábado na festa junina, chorei ontem lembrando e escrevendo sobre ela. A festa que é o ponto alto do calendário da escola. Que não estimula a competitividade, mas a colaboração. Que não tem crianças com uniformes patrocinados por empresas, mas alunos que confeccionam as próprias fantasias, adereços, enfeites. Que tem lugar pra todo mundo. E ver a felicidade dos meus filhos e o envolvimento em todas as etapas, não tem preço. Mais do que uma festa, uma aula de cultura. Você não sabe o quanto nós caminhamos pra chegar até aqui. Mas eu sei. E se você soubesse, também choraria.

***

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Mas o que essa foto de bolo está fazendo aqui? você deve estar se perguntando. É que na verdade eu comecei o post pra falar desse bolo tão fácil e tão gostoso que fiz pra levar pra festa. Acabei divagando, me perdendo, então combinamos assim: a receita fica pra amanhã. 😉

10 anos

Teve menina fazendo 10 anos. E pedindo uma festa “neon”. Teve mãe achando que seria difícil e no final se empolgando muito. Teve amiga emprestando luz negra e material e salvando a pátria. Teve preparativos tão divertidos quanto a festa. Teve menina fazendo enfeites e convites sozinha. Teve irmão empolgado. (o único menino permitido). Teve criança correndo, criança gritando, criança brincando, criança cantando, criança pintando. Teve a mágica quando anoiteceu:

Teve maquiagem e esmalte neon, teve criança brilhando muito na luz negra. Teve copo, canudo, prato, enfeites, cartaz, pulseiras, bolas, teve tudo brilhando e encantando e foi tão legal que quase quero ter dez anos novamente pra pedir uma festa assim.

Teve mãe cansada. Teve menina com pontas do cabelo verdes. Teve copo descartável pela primeira vez em alguns anos e mesmo assim todas as crianças quiseram escrever o nome no copo e usar o mesmo a festa toda. Teve brigadeiro, pizza, cachorro-quente. Teve coxinha, aquela de comer. Teve música, barulho, confusão, alegria. Teve tudo que tem que ter.

Teve menina feliz.

Dez anos. Uau.
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